quarta-feira, 29 de abril de 2015

À espera que um ET nos telefone

A fórmula consagrada nos desenhos animados e nos filmes de ficção científica de série B norte-americanos é "Take us to your leader!" É isto que dizem os extraterrestres quando a sua nave espacial chega à Terra (a Washington ou Nova Iorque, onde havia de ser?). E os terrestres, estupefactos e aterrados, tratam de levar o ET ao mayor, à ONU ou a outro sítio qualquer.

Há 50 anos que o SETI começou a procurar ETI. Têm sido 50 anos de silêncio (Reuters)

Por estranho que possa parecer, saber exactamente que diálogo deve ser encetado com os ET é matéria de estudo científico. A prova disso é que a revista Philosophical Transactions A da conceituada Royal Society britânica acaba de publicar uma edição inteiramente dedicada à "detecção de vida extraterrestre e as suas consequências para a ciência e a sociedade".

No site daquela sociedade científica (rsta.royalsocietypublishing.org/content/369/1936.toc etoc), é possível ter acesso às conferências proferidas por uma constelação de especialistas de "astrobiologia" - vulgo, vida extraterrestre -, num encontro que decorreu em Londres há um ano. Nesse encontro, vários participantes apelaram a uma colaboração das Nações Unidas na definição dos protocolos a adoptar em caso de eventual contacto com uma espécie alienígena inteligente.

Dois meses depois daquele encontro, o célebre físico britânico Stephen Hawking (que não era um dos oradores) lançava, por seu lado, um surpreendente alerta num documentário realizado para o canal de televisão Discovery. Hawking, que acha muito razoável pensar que existe vida inteligente lá fora, dizia que, se algum extraterrestre inteligente quisesse comunicar connosco, o melhor seria ficarmos calados e não respondermos. Porque, se fossem alertadas para a nossa presença, forças alienígenas à procura de mundos habitáveis ou com recursos exploráveis poderiam desembarcar na Terra - com consequências tão nefastas para nós como foi para os índios a chegada à América dos conquistadores espanhóis em finais do século XV.

Mas será que as coisas são assim tão dramáticas? De facto, quando lemos os textos que foram agora postos online, este cenário de contacto físico fica relegado para um plano secundário, como algo de muito improvável - e talvez até impossível.

Uma coisa é certa, contudo: a existência de vida extraterrestre (não necessariamente inteligente) ganhou adeptos na comunidade científica na última década, em especial com a descoberta de planetas extra-solares - e, mais recentemente, com a constatação de que planetas rochosos parecidos com o nosso, em órbita em redor de estrelas parecidas com o nosso Sol, não são a excepção e, pelo contrário, serão mesmo bastante vulgares. A questão já não parece ser a de saber se estamos sozinhos ou não. É apenas uma questão de tempo, dizem muitos especialistas, até encontrarmos vida num desses planetas.

Há uns 50 anos, Frank Drake, fundador do SETI, calculou graças a uma fórmula matemática que leva o seu nome que deveriam existir umas 10 mil civilizações inteligentes no Universo. O SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence) é o famoso projecto de procura de vida extraterrestre inteligente, que chegou a ser um programa da agência espacial norte-americana NASA nos anos 1990, mas que é hoje gerido pelo SETI Institute, uma entidade privada com sede na Califórnia.

O número obtido por Drake poderá ser exagerado (de facto, ninguém sabe calculá-lo ao certo). Mesmo assim, como o Universo contém, segundo as estimativas, centenas de milhares de milhões de galáxias (e a nossa Via Láctea, por exemplo, até 400 mil milhões de estrelas), não há razão para o nosso sistema solar e o nosso planeta serem únicos.

Mas, para além dos argumentos puramente numéricos em favor da existência de outros cantinhos habitáveis, porque é que deveria necessariamente haver vida nos planetas parecidos com a Terra que sem dúvida orbitam em torno de algumas estrelas? E se, mesmo nesses, nada tivesse acontecido?

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Cientistas analisaram pela primeira vez a atmosfera de uma super-terra

Uma equipa de cientistas analisou pela primeira vez a atmosfera de uma super-terra. A experiência olhou para o planeta GJ 12114b, utilizando o Very Large Telescope do Chile, e chegou à conclusão que a atmosfera deste exoplaneta é formado ou por vapor de água muito denso, ou por nuvens grossas. O estudo foi publicado esta semana na revista Nature.

A super-terra GJ 12114b está a 40 anos-luz. (Paul A. Kempton)

O interessante nas super-terras é que “são uma transição entre planetas rochosos como a Terra, Vénus e Marte e os gigantes gelados como Úrano e Neptuno”, explicou Jacob Bean, primeiro autor do artigo, que trabalha no Centro de Astrofísica da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Esta classe era desconhecida até a comunidade científica começar a olhar para os planetas que estão fora do nosso Sistema Solar. Neste caso, o GJ 12114b tem um diâmetro três vezes maior do que a Terra e uma massa 6,5 vezes maior, situa-se a 40 anos-luz e foi descoberto em Novembro de 2009.

A descoberta desta super-terra foi feita graças ao seu trânsito celeste. O GJ 12114b passa à frente da estrela mãe e sempre que isso acontece a luz que chega à nossa Terra é menor. Isto permiti detectar a existência deste planeta e quantificar o seu diâmetro.

A medição da atmosfera foi feita de uma forma semelhante. A equipa utilizou o Very Large Telescope para verificar se determinados comprimentos de onda que no espectro da luz caem no infra-vermelho, ao atravessarem a atmosfera do GJ 12114b eram alterados, denunciando a sua composição.

A partir do conhecimento que os cientistas tinham sobre o planeta, havia três hipóteses sobre a sua atmosfera que foram postas à prova. Poderia ser formada por uma camada densa de vapor de água, poderia ser formada por uma atmosfera fina de hidrogénio e hélio – próprio de planetas gelados e rochosos, ou poderia ser uma mistura de gases vulcânicos.

Através da experiência os cientistas conseguiram retirar a hipótese da atmosfera fina de hidrogénio e hélio. O telescópio procurava uma influência da atmosfera através da absorção de raios de luz, mas depois de retirar o atrito causado pela nossa atmosfera terrestre, não obteve nada.

“O que mais determina o parâmetro que governa as características de absorção é a espessura da atmosfera do planeta – a extensão, a densidade, não necessariamente a abundância de um elemento”, explicou Bean citado pela BBC News.

Neste caso, o facto das leituras do telescópio não darem nenhuma indicação pode querer dizer que estamos perante um planeta com uma atmosfera formada por vapor de água tão denso que fica compactado junto da superfície da super-terra. Desta forma, a maioria dos raios passa por cima e não é influenciada pela atmosfera.

A outra alternativa é que o GJ 12114b tem uma atmosfera constituída por nuvens que bloqueiam a passagem dos raios deste comprimento de onda.

“Este é o resultado mais significativo do último ano sobre medições da atmosfera de um exoplaneta – e um ano é muito tempo neste campo”, defendeu em declarações à BBC News Drake Deming, do Laboratório de Sistemas Planetários da NASA, que fez um comentário sobre o artigo na mesma edição da Nature. O especialista refere que, apesar da grande frequência com que se descobrem novos exoplanetas, esta experiência mostra a dificuldade que é a pesquisa na área.

O próximo passo vai ser a análise da atmosfera através de outros comprimentos de onda no infra-vermelho. Mas Jacob Bean diz que antes disso vai haver mais novidades sobre o GJ 12114b. “Este é o exoplaneta mais interessante que está aí e há muitas pessoas focadas nele.”

sábado, 25 de abril de 2015

Galáxias escuras

No nosso grupo local (GL) de galáxias, conhecem-se mais de trinta galáxias esferóides anãs (ou dSph, na sigla como são conhecidas na literatura internacional), um tipo que parece ser dos mais abundantes no Universo. Com pouca actividade estelar e exibindo baixa luminosidade, o seu elevado factor de massa/luminosidade leva a pensar que as dSph contêm grandes quantidades de massa escura. Assim as dSph de Draco, Sextans e Fornax (entre outras) são dos alvos preferenciais para estudos de aniquilação de neutralinos ou outros candidatos a massa escura. Algumas estimativas apontam para que a massa visível das dSph seja da ordem das 10^7 a 10^8 massas solares, ou seja, dez a cem vezes menos do que a sua massa escura.

Estas dSph são satélites da nossa galáxia; relativamente pequenas, portanto. Conhece-se, porém, um exemplo em que toda uma galáxia não evidencia actividade estelar, sendo praticamente confundida com o fundo espacial. Trata-se de VirgoHI21 e foi descoberta em 2005 por uma equipa internacional liderada por astrónomos britânicos, a trabalhar a partir do radiotelescópio Lovell da Universidade de Manchester. Esta galáxia roda como outras, mas não contém estrelas, pelo que, sem produzir luz visível, a sua natureza individualizada só foi estabelecida através da radiação de 21 cm, resultante da transição hiperfina dos átomos neutros de hidrogénio (H). Traçando a rotação deste gás ao longo dos contornos de VirgoHI21, a quantidade detectada é muito pequena para manter a galáxia escura sem se desmembrar, devido às forças centrífugas resultantes da rotação rápida. Calculou-se então que a quantidade de massa escura seja mil vezes superior à do H, sendo esta razão cem vezes menor na Via Láctea. Se VirgoHI21 fosse uma galáxia normal, dada a sua dimensão, deveria ser brilhante ao ponto de ser visível até por um bom telescópio amador.

Localizada no enxame galáctico da Virgem, a cerca de 15 Mpc do Sol, VirgoHI21 é uma raridade, até hoje não se conhecendo mais exemplos em diversos rastreios espaciais. Outros objectos similares encontrados anteriormente acabaram por revelar uma população estelar, quando observados pelos maiores telescópios ópticos. Outros ainda são o remanescente de colisões galácticas. As primeiras observações de VirgoHI21 ocorreram, aliás, em 2000, tendo-se levado cinco anos a descartar todas as hipóteses alternativas, o que incluiu observações nos radiotelescópios de Arecibo (Porto Rico) e Westerbork (Países Baixos) e confirmação óptica no telescópio Isaac Newton (Canárias).

A simulação da evolução da estrutura de larga escala no Universo é largamente dependente do tipo de massa escura considerada e das suas interacções. A massa escura do tipo frio entra na maioria dos modelos mais usados, prevendo, porém, a existência de cerca de dez a cem vezes mais dSph do que as conhecidas no GL.

Remanescentes da formação do GL, existem milhares de nuvens rápidas de H neutro (HVC, na sigla inglesa) que se deslocam a velocidades mais elevadas do que o disco galáctico, estando fora do seu plano. Em 2003, um grupo da Universidade da Califórnia em Berkeley descobriu a HVC 127-41-330, com dimensões típicas das dSph, mas, ao contrário destas, sem aparente população estelar. As HVC poderão ser demasiado pequenas para induzir a “ignição” estelar, mas esse já não é o caso de VirgoHI21. Em qualquer caso, conhece-se outra dezena de HVC candidatas a pequenas galáxias escuras, que também evidenciam rotação. É um problema interessante, pois poderá colmatar parte das dSph em falta.

Retirado de:
SUPER 147 - Julho 2010

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Astrónomo português recebe prémio internacional na Arménia

O astrónomo Nuno Cardoso Santos, investigador do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto (CAUP), recebeu ontem, na Arménia, o prémio internacional Viktor Ambartsumian.O prémio - partilhado com os seus colegas Michel Mayor (Universidade de Genebra) e Garik Israelian (Instituto de Astrofísica das Canárias) - foi atribuído pelo trabalho no estudo das estrelas que têm planetas em órbita e que fornecem indícios essenciais para a compreensão dos processos de formação planetária, informou o CAUP.

O galardão, no valor de cerca de 385 mil euros e considerado o mais importante na astrofísica depois do Prémio Nobel, será distribuído pelos três investigadores.

O Prémio Viktor Ambartsumian é atribuído de dois em dois anos e distingue investigadores, de qualquer país, por excepcionais contributos para a Ciência.

Este ano, foram nomeados 14 investigadores ou equipas, cabendo o prémio ao trio liderado pelo Professor Michel Mayor, que em 1995 codescobriu o primeiro exoplaneta à volta de uma estrela do tipo solar (51 Pegasi).

O júri que atribuiu o prémio é composto por físicos e astrónomos de renome, dos quais se destacam Martin Rees (Master do Tinity College da Universidade de Cambridge), Catherine Cesarsky (ex-directora geral do ESO e ex-presidente da União Astronómica Internacional) e Geoffrey Burbidge (editor das revistas "The Astrophysical Journal" e "Annual Review of Astronomy and Astrophysics").

Nuno Cardoso Santos é autor de 128 artigos científicos publicados, com mais de 5200 citações.

Ao ter conhecimento do prémio, o investigador manifestou-se “obviamente muito feliz” e acrescentou “esperar, sobretudo, que este reconhecimento possa, de alguma forma, ajudar a astronomia nacional a fazer cada vez mais e melhor”.

Em comunicado, o CAUP refere que actualmente são conhecidos cerca de 500 planetas extra-solares, muitos dos quais (em especial os de pequena massa) descobertos pela equipa liderada pelo professor Michel Mayor. Entre eles está o mais pequeno exoplaneta descoberto, Gliese 581e, com apenas 1,9 massas da Terra.

“Apesar do já elevado número de planetas extra-solares detectados, os mecanismos de formação destes sistemas são ainda pouco compreendidos. Por isso a equipa dedica-se também a tentar compreender melhor as propriedades destes sistemas planetários (e das suas estrelas-mãe), de modo a melhorar os actuais modelos de formação planetária”, acrescenta.

O Centro de Astrofísica da Universidade do Porto (CAUP) foi criado em Maio de 1989 e iniciou as actividades em Outubro de 1990. É a maior unidade de investigação na área da Astronomia em Portugal, considerada como “Excelente” nas últimas avaliações de Unidades I & D, efectuada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).

terça-feira, 21 de abril de 2015

A estrela mais pesada do Universo está a emagrecer



Se a Terra girasse à volta da estrela R136a1, a luz que iríamos receber seria tão forte como o brilho do Sol é em relação à luz da Lua. Até agora, pensava-se que as estrelas não poderiam ter uma massa superior a 150 vezes a massa do nosso astro-rei, mas a R136a1 tem 265 vezes a massa solar e já emagreceu um bocado desde o seu nascimento. "Ao contrário dos humanos, estas estrelas nascem pesadas e perdem peso à medida que envelhecem”, disse Paul Crowther, num comunicado do Observatório Europeu do Sul. Há um milhão de anos este astro estava a formar-se no aglomerado estelar RMC 136a, que fica a 164 mil anos-luz do nosso sistema solar, perto da galáxia chamada Grande Nuvem de Magalhães. Na altura, a estrela teria 320 vezes a massa do Sol.

Crowther liderou a equipa da Universidade de Sheffield, Inglaterra, que com o grande telescópio no Chile (Very Large Telescope) e informação recolhida pelo telescópio espacial Hubble, identificaram várias estrelas gigantes neste e noutro aglomerado estelar, NGC 3603. Segundo diz, a R136a1 já está a meio da vida e perdeu um quinto da sua massa inicial. Mas brilha dez milhões de vezes mais que o nosso Sol. Estas regiões do Universo, carregados de pó e gases, geram estrelas com massas incríveis, mas com um tempo de vida limitado.

A descoberta altera o limite do tamanho destes astros. “As estrelas mais pequenas têm um limite mínimo de tamanho oito vezes acima de Júpiter, abaixo do qual são estrelas falhadas ou anãs castanhas”, explicou Olivier Schnurr, do Instituto Astrofísico de Potsdam na Alemanha. O limite superior expandiu-se, para cerca de 300 vezes a massa do Sol.

Ao contrário da nossa estrela, que tem os contornos definidos, a R136a1 expulsa tanta matéria da região mais externa que se torna difícil definir os seus contornos. À superfície, a sua temperatura é de 40 mil graus, mais de sete vezes superior ao nosso Sol.

No fim da vida, as estrelas mais maciças dão origem a supernovas, que se transformam ou numa estrela de neutrões ou em buracos negros. Os astrofísicos pensam que a morte das novas gigantes resulte numa supernova extremamente brilhante, que disperse quantidades de ferro equivalentes a dez massas solares. No lugar da estrela não fica nada.

terça-feira, 14 de abril de 2015

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